Debruçado sobre ele em madrugadas. Em movimentos, em trajetos de curto espaço de memória ainda me calo. Ainda me calo quando o assunto é ele. Fugiu, piscou, desapareceu. O objeto principal da sala. Se aparecem três policiais na porta, um em especial, então. A minha vida às vezes se resume em sentar, acender o cigarro, deixar a sala cheirando, a fome voltando, a morte esperando, as fezes crescendo, o idiota rolando. A ligação em término se concretizara com um corte de placar dezessete mil novessentos e quarenta e seis contra doze. O doze era culpado. Era culpado. Hei, você é culpado. Eu sei, tá bom, eu sou. Eu sei. A questão de promover o placar, de fazê-lo ser feito, de tentar realizá-lo. Adorar o empate, permanece a mesma idéia, mas sem a aprovação característica. Entendo as dificuldades, mas não percebo as causas aparentes. O desejo. Talvez. Hein, seria o desejo? Não, ás vezes não dá pra acreditar no que é falado. Uma contradição emocional seguida da outra. Termino da sexta seção.
Não existem mais culpas. Eu nunca vi acontecer e não foi por falta de tentativas. Nada me pareceu tão agressivo e medíocre em toda a minha vida. Nada. Apenas frases dispostas de um jeito que originou repulsa. Deixo pra quem tentar, quero distância. Edouard Lalo faria melhor.Saint-Säens faria melhor e Berlioz então, nem se fale. Melhor que os outros dois. O objeto principal da sala, os elementos e a culpa. Tudo fez parte de um caleidoscópio crítico e sincero que me deixou embrutecido. Deveria tratar melhor a cabeça. Tive um professor no colegial que dizia que eu devia tentar o celibato. Coitado, botei fé. Mataria de desgosto o primeiro mestre, tamanha minha explosão egocêntrica. Mas devo esquecer, concentrar-me nos monstros japoneses atrás de mim. O trabalho. A única salvação é a transformação do trabalho. Escrever, pintar, carregar bugigangas do Paraguai, sabe-se lá. Qualquer coisa que fizer, fazer até desgastar a cabeça do cacete. Trabalho, de péssima qualidade, mas trabalho. Às vezes penso se não pode ser uma desculpa. Ler. Ler ajuda. De algum jeito o objeto me ajuda. Reverência e capricho. E o ridículo fato de pedir um bombardeamento de vida ás duas da manhã olhando pro lado, deitado na cama? Maldito caminho. Maldita condição. Falta mais amor e perdão. Agora sim, desencana. Birra e trajeto. Tchau. Beijos.Comunicação? Esquece. Trabalho.
sábado, 14 de janeiro de 2006
Lola
Estou com saudade, Lola. Estou com saudades. A porra das bitucas fedendo o quarto. A merda dos pensamentos e as mesmas frases. A falta de segurança emocional, o desejo de te ver todo minuto, pois você é a única coisa nova de todo o velho. Mostrou o mundo de utopia. A noite, as moradias, os semelhantes, o jantar feito por cinco pessoas de vinte e três anos na média. A cerveja depois disso, a amizade sem compromisso, o apartamento... Tudo isso exala você. Sabor de sonho. Não sei se me remete a essa idéia ou participa dela. Depois de uma chapada de vários elementos distintos, por várias vias, entrar no quarto ás seis horas da manhã quase não conseguindo andar, me controlando para não vomitar e você lá. Deitada na cama com um pequeno espaço minúsculo para eu poder me deitar. E deito. E você acorda e me abraça. E você me beija. E você dorme. E você acorda de novo. E eu durmo. E você dorme. E nós acordamos uma hora depois e transamos. Mesmo com outra pessoa dormindo no quarto. E tomamos banho e dormimos, e deitamos e você com minha camiseta suja de anteontem e você vai embora ás cinco da tarde e esquece os óculos. Você almoça. Você me chama de “lindinho” só pra encher o saco. Você. Você. Você acentua meus defeitos, você me mostra o quanto sou burro, você diz que gosta muito de mim, mas não diz que ama embora dissesse há um tempo. A gente fica um tempo sem se ver. Se vê de novo e você chora. E eu choro. E vou embora. Ando três quarteirões, volto, choramos e tudo fica bem como se fosse máscara forçada. Mas eu não sei. O sabor, o momento, A raiva e inveja que sinto com sua liberdade e intelecto. E a sua naturalidade e o seu desejo. Estou com saudade, Lola. Estou com saudade, Lola. Você chegava a casa nos mesmos dias, ás vezes um dia antes, ficava dois fins de semana, ficava um dia só, mas ficava. Diz estarmos juntos, diz estarmos indiferentes, diz não saber, critica, maltrata, ama, geme. Impede de eu tomar banho contigo e depois toma dois, impede de eu lhe comer, me beija forte, me beija fraco, aperta no corpo, aperta no colo, deita entre minhas pernas enquanto conversa com o amigo gay. Liga tarde. Liga cedo. Não sei mais de nada Lola, não sei mais de nada. Nada. Eu tenho medo. Você dizia ter medo, não dizia ser certo. E ficávamos bêbados juntos comendo brigadeiro temperado, aditivado. E não conseguíamos olhar uns pros outros de tão chapados que estávamos, porque a história era estranha. É estranha. E eu te conheci enquanto dormia. Quase dois anos antes, quando você me acordou com um amigo meu para irmos a uma festa. E eu te olhei. Soube que gostava de Piazzola e eu te desejei. E fomos em dois grupos. E eu te desejei, você ficou com um cara depois de duas horas que eu não tomei a iniciativa e o beijou freneticamente, amassou, empurrou, lambeu. E hoje estamos aqui, ali, comemos lasanha juntos e você diz que gosta muito de mim depois de um mês sem nos vermos. Mas fala isso depois de umas doze horas juntos. Estou com saudade, Lola. Estou com muita saudade.
domingo, 8 de janeiro de 2006
O anão e o palhaço Faustino
Sentado na cama, o palhaço Faustino punha munição em sua arma com o cigarro apagado na boca. Tremendo a mão deixou cair duas balas. Apanhou-as de volta, colocou-as e apontou para o anão pelado arrancado á força do banho. Estavam dentro do trailer do Circo Mascavo.
- Eu vou te matar, anão desgraçado. Vou te matar.
- Fausto, somos amigos á quase trinta anos, não faça isso.
- Amigos? Não me fale essa palavra. Ajoelha. Ajoelha. Quero acertar sua cabeça, filho da puta. Vai, ajoelha.
- calma... Pronto ajoelhei, não faça nenhuma besteira.
- Besteira? Besteira é o que fez comigo, filho da puta. Filho da puta. Quase trinta anos de circo, seu filho da puta. Quase trinta anos!
- Desculpa, Fausto. Desculpe.
- Desculpa? Fausto não. Palhaço Faustino.
- Desculpe, palhaço Faustino.
- Porque fez isso, seu desgraçado? Confiava em você. (deu dois chutes no estômago do anão)
- Calma, Fausto.
- Calma o caralho. (pow, tiro na perna esquerda)
- Ahhhhh.....
(pow, tiro na perna direita)
- Howwwww....
(pow, tiro no ombro direito)
- Gréééé.....
O palhaço pegou a mão direita do anão “Essa mão, que me aprontou... toma.” Deu um tiro nela.
- Huuuu.....
Acendeu o cigarro, abriu a geladeira enquanto o amigo agonizava no chão e pegou duas cervejas. “Toma” Deu uma pro anão. Propôs o brinde, mas o anão cuspiu em seu rosto. “Filho da puta” E chutou o anão na barriga, quando ouviu alguém bater na porta. “Fica quieto, anão desgraçado. Quem pode ter vindo bisbilhotar?” Abriu lentamente e porta e viu Cirilo, o domador de leões acompanhado de metade do circo. “Está tudo bem aí? Ouvimos tiros” “Pow” Deu um tiro na cabeça do domador e entrou. Espanto do povo que saiu correndo. ”Tá vivo ainda, seu filho da puta?” O anão tomava cerveja e chorava sentado em uma poça de sangue. “Virão atrás de você.” O palhaço pegou na mão direita baleada e apertou, gritou no meio do grito “Anão desgraçado, morre!” “Quantos sermões já ouvi de você, palhaço! Quanto coisa aturei pra acabar sendo morto! Posso mijar?” “Mijar, anão desgraçado? Se você conseguir se levantar, pode.” E o anão mijou sentado. “Vou morrer pelado e mijado!” (Íon) Merda. A polícia. Enfiou a cabeça pela porta: “Tenho um refém” Voltou, abriu a geladeira e pegou mais duas cervejas. “Obrigado” “Porque fez isso comigo, anão desgraçado?”, “sabe muito bem que meu nome é Astolfo. Obrigado por me chamar de anão desgraçado na hora da minha morte!” “Toma!” Pow. Um tiro do lado da barriga. “haaaaa!” Os policiais ficaram atentos ao que podia estar acontecendo lá dentro.
- Veja, acabou a munição. Mas eu sou um palhaço precavido, sou, sim senhor, tenho mais quatro balas.
- Pra que mais quatro balas? Vai enfrentar a polícia? Eu já estou morto, mesmo. Questão de tempo. – disse o anão cuspindo sangue.
Toma. “Pow.” Deu um tiro no dedão do pé do anão.
- Anão desgraçado. Morre!
Enfiou a cabeça na janela:
- Vou me entregar, mas quero um padre!
- Quantas pessoas estão com você? Estão mortas, feridas? – um policial gritou.
- Tem três pessoas comigo. Uma está morta, as outras intactas. Traga o padre.
- Calma, vamos providenciar.
“Tá vivo ainda, anão desgraçado traidor?” “Não agüento mais de dor.” O palhaço foi até o espelho e removeu a maquiagem e o nariz de plástico.
- O padre chegou! – Gritaram de fora.
- Tragam ele aqui.
“Olá padre.” “Meu Deus. Esse pobre rapaz! Você o matou! Cadê os outros dois reféns?” “Não existem outros dois reféns e ele não está morto!” “Por enquanto, não estou.”
- Fala, meu filho, por que me chamou?
- Abençoe esse anão maldito, não quero que ele vá pro inferno. Foi um grande amigo meu.
- E você? Acho que é quem mais precisa.
- Não fiz mais do que o certo, padre calhorda. Faça isso agora mesmo.
E fez. Toda a cerimônia pro palhaço que chorou. “Obrigado padre, obrigado.” E deu um tiro na testa do padre que abriu um buraco na parede. Descarregou a arma no anão já morto, saiu, foi algemado e voltou pro circo treze anos depois.
- Eu vou te matar, anão desgraçado. Vou te matar.
- Fausto, somos amigos á quase trinta anos, não faça isso.
- Amigos? Não me fale essa palavra. Ajoelha. Ajoelha. Quero acertar sua cabeça, filho da puta. Vai, ajoelha.
- calma... Pronto ajoelhei, não faça nenhuma besteira.
- Besteira? Besteira é o que fez comigo, filho da puta. Filho da puta. Quase trinta anos de circo, seu filho da puta. Quase trinta anos!
- Desculpa, Fausto. Desculpe.
- Desculpa? Fausto não. Palhaço Faustino.
- Desculpe, palhaço Faustino.
- Porque fez isso, seu desgraçado? Confiava em você. (deu dois chutes no estômago do anão)
- Calma, Fausto.
- Calma o caralho. (pow, tiro na perna esquerda)
- Ahhhhh.....
(pow, tiro na perna direita)
- Howwwww....
(pow, tiro no ombro direito)
- Gréééé.....
O palhaço pegou a mão direita do anão “Essa mão, que me aprontou... toma.” Deu um tiro nela.
- Huuuu.....
Acendeu o cigarro, abriu a geladeira enquanto o amigo agonizava no chão e pegou duas cervejas. “Toma” Deu uma pro anão. Propôs o brinde, mas o anão cuspiu em seu rosto. “Filho da puta” E chutou o anão na barriga, quando ouviu alguém bater na porta. “Fica quieto, anão desgraçado. Quem pode ter vindo bisbilhotar?” Abriu lentamente e porta e viu Cirilo, o domador de leões acompanhado de metade do circo. “Está tudo bem aí? Ouvimos tiros” “Pow” Deu um tiro na cabeça do domador e entrou. Espanto do povo que saiu correndo. ”Tá vivo ainda, seu filho da puta?” O anão tomava cerveja e chorava sentado em uma poça de sangue. “Virão atrás de você.” O palhaço pegou na mão direita baleada e apertou, gritou no meio do grito “Anão desgraçado, morre!” “Quantos sermões já ouvi de você, palhaço! Quanto coisa aturei pra acabar sendo morto! Posso mijar?” “Mijar, anão desgraçado? Se você conseguir se levantar, pode.” E o anão mijou sentado. “Vou morrer pelado e mijado!” (Íon) Merda. A polícia. Enfiou a cabeça pela porta: “Tenho um refém” Voltou, abriu a geladeira e pegou mais duas cervejas. “Obrigado” “Porque fez isso comigo, anão desgraçado?”, “sabe muito bem que meu nome é Astolfo. Obrigado por me chamar de anão desgraçado na hora da minha morte!” “Toma!” Pow. Um tiro do lado da barriga. “haaaaa!” Os policiais ficaram atentos ao que podia estar acontecendo lá dentro.
- Veja, acabou a munição. Mas eu sou um palhaço precavido, sou, sim senhor, tenho mais quatro balas.
- Pra que mais quatro balas? Vai enfrentar a polícia? Eu já estou morto, mesmo. Questão de tempo. – disse o anão cuspindo sangue.
Toma. “Pow.” Deu um tiro no dedão do pé do anão.
- Anão desgraçado. Morre!
Enfiou a cabeça na janela:
- Vou me entregar, mas quero um padre!
- Quantas pessoas estão com você? Estão mortas, feridas? – um policial gritou.
- Tem três pessoas comigo. Uma está morta, as outras intactas. Traga o padre.
- Calma, vamos providenciar.
“Tá vivo ainda, anão desgraçado traidor?” “Não agüento mais de dor.” O palhaço foi até o espelho e removeu a maquiagem e o nariz de plástico.
- O padre chegou! – Gritaram de fora.
- Tragam ele aqui.
“Olá padre.” “Meu Deus. Esse pobre rapaz! Você o matou! Cadê os outros dois reféns?” “Não existem outros dois reféns e ele não está morto!” “Por enquanto, não estou.”
- Fala, meu filho, por que me chamou?
- Abençoe esse anão maldito, não quero que ele vá pro inferno. Foi um grande amigo meu.
- E você? Acho que é quem mais precisa.
- Não fiz mais do que o certo, padre calhorda. Faça isso agora mesmo.
E fez. Toda a cerimônia pro palhaço que chorou. “Obrigado padre, obrigado.” E deu um tiro na testa do padre que abriu um buraco na parede. Descarregou a arma no anão já morto, saiu, foi algemado e voltou pro circo treze anos depois.
terça-feira, 3 de janeiro de 2006
Entrevista com o dramaturgo Joventino Salgado.
(Trechos baseados na gravação em áudio de 12/09/2005, no edifício Bento Cardoso, residência do autor em São Paulo)
R.B. – Joventino Salgado, doutor em literatura e renomado dramaturgo, quando finalmente irá parar de escrever?
J.S. - Quando esgotar a insensatez de escrever que tenho, não irei escrever mais. Por enquanto, me agrada.
R.B – Seus filhos freqüentam o colégio?
J.S. – Freqüentam por opção. (risos)
R.B. – Você se considera pomposo?
J.S. – Já fui de muito pomposo nesta vida. Acho que ainda o sou. A pompa tem seu valor poético e humano. Minha mediocridade, verossímil e ao mesmo tempo bucólica, de origem paternal baseada nas leis do Karma, comprova isso.
R.B. – Você escreve peças de Teatro, mas iniciou sua carreira como critico literário. O que tirou de proveito para seu trabalho?
J.S. – Nada e um pouco de tudo. (risos)
R.B. – Como assim? (risos)
J.S. – Assim, oras. (risos)
R.B. – O que acha da obra de Sidney Magal que escreveu uma música inspirado em uma peça de sua autoria?
J.S. – Desculpe, não sei do que está falando.
R.B. - Sobre a peça “Desafios de Carmem não vistos por Bizet” estreada em julho do ano passado.
J.S. – Não sabia disso (pigarreia).
R.B. – Qual é sua comida preferida?
J.S. – Risoto de frango.
R.B. – Você foi visto fazendo o popular “bundão” (abaixar as calças e exibir as nádegas) e gritando encima de um fusca no meio da paulista ás três da manha do dia 17 de junho de 2002. Foi um golpe publicitário para sua peça que iria estrear no dia seguinte?
J.S. – Não. Não me lembro bem desse dia, mas sei que não foi essa a idéia.
R.B. – Você possui animais de estimação?
J.S. – Um cachorro de nome “Filo”
R.B. – Existe a possibilidade de uma adaptação da sua peça “Saiu correndo ou pulou da cama?” para um seriado de TV. O que acha sobre isso?
J.S. – Tomara que de certo, só espero que a adaptação seja também genial, digo, seja fiel.
R.B. – (risos) Você costuma consultar a internet?
J.S. – Não.
R.B. – O que acha da rede de computadores?
J.S. – Finjo que não existe. Me sinto melhor.
R.B. – porque?
J.S. – Para não saber que existem tantas pessoas solitárias.
R.B. – Você é solitário?
J.S. – Apenas no sexo (risos)
R.B. – Como assim?
J.S. – Nós estamos nos comunicando?
R.B. – Sim.
J.S. – Como sabe?
R.B. – Bom, eu sei q...
J.S. (interrompendo) – Eu acho que ninguém na Terra se comunica. A uns cem anos, pelo menos. Com licença, terei que convida-lo a se retirar.
R.B. – (risos) Brincadeira, claro..
J.S. – Filo, Filo, pega... pega...
R.B. – Joventino Salgado, doutor em literatura e renomado dramaturgo, quando finalmente irá parar de escrever?
J.S. - Quando esgotar a insensatez de escrever que tenho, não irei escrever mais. Por enquanto, me agrada.
R.B – Seus filhos freqüentam o colégio?
J.S. – Freqüentam por opção. (risos)
R.B. – Você se considera pomposo?
J.S. – Já fui de muito pomposo nesta vida. Acho que ainda o sou. A pompa tem seu valor poético e humano. Minha mediocridade, verossímil e ao mesmo tempo bucólica, de origem paternal baseada nas leis do Karma, comprova isso.
R.B. – Você escreve peças de Teatro, mas iniciou sua carreira como critico literário. O que tirou de proveito para seu trabalho?
J.S. – Nada e um pouco de tudo. (risos)
R.B. – Como assim? (risos)
J.S. – Assim, oras. (risos)
R.B. – O que acha da obra de Sidney Magal que escreveu uma música inspirado em uma peça de sua autoria?
J.S. – Desculpe, não sei do que está falando.
R.B. - Sobre a peça “Desafios de Carmem não vistos por Bizet” estreada em julho do ano passado.
J.S. – Não sabia disso (pigarreia).
R.B. – Qual é sua comida preferida?
J.S. – Risoto de frango.
R.B. – Você foi visto fazendo o popular “bundão” (abaixar as calças e exibir as nádegas) e gritando encima de um fusca no meio da paulista ás três da manha do dia 17 de junho de 2002. Foi um golpe publicitário para sua peça que iria estrear no dia seguinte?
J.S. – Não. Não me lembro bem desse dia, mas sei que não foi essa a idéia.
R.B. – Você possui animais de estimação?
J.S. – Um cachorro de nome “Filo”
R.B. – Existe a possibilidade de uma adaptação da sua peça “Saiu correndo ou pulou da cama?” para um seriado de TV. O que acha sobre isso?
J.S. – Tomara que de certo, só espero que a adaptação seja também genial, digo, seja fiel.
R.B. – (risos) Você costuma consultar a internet?
J.S. – Não.
R.B. – O que acha da rede de computadores?
J.S. – Finjo que não existe. Me sinto melhor.
R.B. – porque?
J.S. – Para não saber que existem tantas pessoas solitárias.
R.B. – Você é solitário?
J.S. – Apenas no sexo (risos)
R.B. – Como assim?
J.S. – Nós estamos nos comunicando?
R.B. – Sim.
J.S. – Como sabe?
R.B. – Bom, eu sei q...
J.S. (interrompendo) – Eu acho que ninguém na Terra se comunica. A uns cem anos, pelo menos. Com licença, terei que convida-lo a se retirar.
R.B. – (risos) Brincadeira, claro..
J.S. – Filo, Filo, pega... pega...
terça-feira, 13 de dezembro de 2005
Alguém pediu para avisá-lo
Hoje morreu meu marido e fiz exatamente o que faço nas tardes de terça e quinta – feira: pegar duas conduções e olhar vitrines no centro. A única diferença é que estou andando mais rápido e amanhã tem enterro, antes não havia previsão de amanhã. Não tenho nem idéia de quem avisar, pois a impressão era de haver só nós dois, sem filhos, sem parentes. Apenas minha irmã, aquela megera, que deixou a cidade e foi viver no interior com o amante. Odeio mulher que trai.
Existe uma loja, no encontro com a Avenida Quatorze de Julho com a Moraes Salles, que é a minha preferida. Grande, barulhenta por dentro, com um cheiro muito bem posto que sai das frestas. O produto mais barato é o valor da compra de mercado do mês. Cada gente bonita! Cada coisa! A loja chama “Aroma Floral” e para uma mulher na base dos cinqüenta, como eu, é um sonho. Já pensou? Comprar um casaco e mostrar pra Mariluci cabeleireira? Ela ia ter um treco.
Acabei de dar risada e lembrei de Mario Ângelo, meu finado. Quando casamos, era forte, cheio de vida. Imaginem vocês, eu não agüentava transar com ele. Ele era Insaciável! Depois, nem com reza braba o pingula dava sinal. Sua coleção de revólveres, sua camisa do Corinthians, seu fusca bege, seu toca-discos com aquelas malditas músicas, o conhaque, os churrascos, as noites acordando pra tomar antiácido. Ai, que saudades de Mario Ângelo.
“Dona Martinha.” Ouvi alguém no meio da multidão. “Dona Martinha!” Destacava tanto o nhá que logo reconheci o amigo do finado. “Oi, Jerônimo.” Companheiro da firma que M.A. se aposentou. Falou um discurso pro morto e foi logo jogando a verdadeira face “Não haverá indenizações.” Eu não tinha dinheiro. Apenas uma merreca. Chorei, anoiteceu e voltei pra casa.
Preparava um ensopado com abobrinha e galinha quando os arruaceiros de sempre começaram a algazarra em frente de casa. Sai e gritei aos moleques que retrucaram “Olha a véia. Precisa de uma pistola pra acalmar.” Odeio esses moleques. Os vizinhos do lado viajaram e quando voltaram a casa tinha sido assaltada. Tenho certeza que foram eles. Tenho certeza.
Acordei e havia um envelope jogado em casa pela minha janela. Quase trezentos reais e um bilhete: “É seu salário semanal inicial. Se quiser aceitar o trabalho, entregue o recado anexo ao sujeito de camisa amarela sempre ás dezoito horas na esquina da Nove de Julho com a Moraes Salles. O código é “Alguém pediu para avisá-lo”. Decore o recado, não vá com ele em mãos. O recado é: Tudo certo, Bufo. Temos certeza que o homem não tem saída. Hoje ás 21:00. Traga a maleta.”
Tanto dinheiro para tão pouco? Se pegassem um moleque na rua pra esse serviço ele não cobraria mais de dez reais. Finalmente, o casaco é meu.
O cruzamento ficava uma rua acima da “Aroma Floral.” Comprava o casaco, descia uma rua, avisava o idiota e ia embora, esperando o pagamento da semana que vem. Encontrei o sujeito “Alguém pediu para avisá-lo” “Conheço você, minha senhora? Com licença.” E saiu. Fiquei pasma e esperei. Passavam pelo menos três pessoas de camisa amarela por minuto. “Alguém pediu para avisá-lo” “Alguém pediu para avisá-lo.” Voltei pra casa ás 22h30min, fiz um chá e fui dormir. E se vierem se vingar?
Acordei com medo. E nos outros dias, também. Quando uma semana se passou, a história se repetiu. “É seu salário semanal. Aceitou o trabalho, entregue o recado anexo ao sujeito de camisa amarela ás dezoito horas na esquina da Avenida Joventino Flores Penteado com a Moraes Salles. O código é “Alguém pediu para avisá-lo”. Decore o recado, não vá com ele em mãos. O recado é: Parabéns, Bufo. O homem não teve saída. Hoje ás 22:00. Traga a maleta.” Exatamente um quarteirão abaixo da semana passada. Trezentos e cinqüenta reais. Como não souberam que não consegui passar o recado? “Alguém pediu para avisá-lo”, “Alguém pediu para avisá-lo”, “Alguém pediu para avisá-lo” e nada. Voltei para casa, fiz um chá e dormi.
Mais duas semanas. Sempre aumentando mais cinqüenta reais, o local de encontro sempre uma quadra abaixo da anterior, eu não conseguindo achar o sujeito de camisa amarela. Hoje recebi o que diziam ser o último trabalho: Avenida Quatorze de Julho com a Moraes Salles, “Aroma Floral.” Fui. A loja preferida, a mesma vitrine, com... um sujeito parado de camisa amarela? “Alguém pediu para avisá-lo” ”A senhora é Marta Medeiros?” “Sim, sou a encarregada pelo trabalho” Pegou em minha mão, me algemou e deu voz de prisão. “O que é isso?” “Vamos até sua casa, Dona Marta.”
Chegaram a casa com cinco viaturas, o delegado de camisa amarela e outros três investigadores. A vizinhança alarmada. “Mostre-me seu quarto.” Quando cheguei ao quarto, havia um cheiro forte. “Que cheiro é esse?” três cadáveres debaixo da cama, um dentro do colchão, todos em estado de putrefação. Meus bilhetes estavam encima da escrivaninha. “Pois é, Sargento Peçanha, a ligação anônima era verdadeira!” Desmaiei.
Existe uma loja, no encontro com a Avenida Quatorze de Julho com a Moraes Salles, que é a minha preferida. Grande, barulhenta por dentro, com um cheiro muito bem posto que sai das frestas. O produto mais barato é o valor da compra de mercado do mês. Cada gente bonita! Cada coisa! A loja chama “Aroma Floral” e para uma mulher na base dos cinqüenta, como eu, é um sonho. Já pensou? Comprar um casaco e mostrar pra Mariluci cabeleireira? Ela ia ter um treco.
Acabei de dar risada e lembrei de Mario Ângelo, meu finado. Quando casamos, era forte, cheio de vida. Imaginem vocês, eu não agüentava transar com ele. Ele era Insaciável! Depois, nem com reza braba o pingula dava sinal. Sua coleção de revólveres, sua camisa do Corinthians, seu fusca bege, seu toca-discos com aquelas malditas músicas, o conhaque, os churrascos, as noites acordando pra tomar antiácido. Ai, que saudades de Mario Ângelo.
“Dona Martinha.” Ouvi alguém no meio da multidão. “Dona Martinha!” Destacava tanto o nhá que logo reconheci o amigo do finado. “Oi, Jerônimo.” Companheiro da firma que M.A. se aposentou. Falou um discurso pro morto e foi logo jogando a verdadeira face “Não haverá indenizações.” Eu não tinha dinheiro. Apenas uma merreca. Chorei, anoiteceu e voltei pra casa.
Preparava um ensopado com abobrinha e galinha quando os arruaceiros de sempre começaram a algazarra em frente de casa. Sai e gritei aos moleques que retrucaram “Olha a véia. Precisa de uma pistola pra acalmar.” Odeio esses moleques. Os vizinhos do lado viajaram e quando voltaram a casa tinha sido assaltada. Tenho certeza que foram eles. Tenho certeza.
Acordei e havia um envelope jogado em casa pela minha janela. Quase trezentos reais e um bilhete: “É seu salário semanal inicial. Se quiser aceitar o trabalho, entregue o recado anexo ao sujeito de camisa amarela sempre ás dezoito horas na esquina da Nove de Julho com a Moraes Salles. O código é “Alguém pediu para avisá-lo”. Decore o recado, não vá com ele em mãos. O recado é: Tudo certo, Bufo. Temos certeza que o homem não tem saída. Hoje ás 21:00. Traga a maleta.”
Tanto dinheiro para tão pouco? Se pegassem um moleque na rua pra esse serviço ele não cobraria mais de dez reais. Finalmente, o casaco é meu.
O cruzamento ficava uma rua acima da “Aroma Floral.” Comprava o casaco, descia uma rua, avisava o idiota e ia embora, esperando o pagamento da semana que vem. Encontrei o sujeito “Alguém pediu para avisá-lo” “Conheço você, minha senhora? Com licença.” E saiu. Fiquei pasma e esperei. Passavam pelo menos três pessoas de camisa amarela por minuto. “Alguém pediu para avisá-lo” “Alguém pediu para avisá-lo.” Voltei pra casa ás 22h30min, fiz um chá e fui dormir. E se vierem se vingar?
Acordei com medo. E nos outros dias, também. Quando uma semana se passou, a história se repetiu. “É seu salário semanal. Aceitou o trabalho, entregue o recado anexo ao sujeito de camisa amarela ás dezoito horas na esquina da Avenida Joventino Flores Penteado com a Moraes Salles. O código é “Alguém pediu para avisá-lo”. Decore o recado, não vá com ele em mãos. O recado é: Parabéns, Bufo. O homem não teve saída. Hoje ás 22:00. Traga a maleta.” Exatamente um quarteirão abaixo da semana passada. Trezentos e cinqüenta reais. Como não souberam que não consegui passar o recado? “Alguém pediu para avisá-lo”, “Alguém pediu para avisá-lo”, “Alguém pediu para avisá-lo” e nada. Voltei para casa, fiz um chá e dormi.
Mais duas semanas. Sempre aumentando mais cinqüenta reais, o local de encontro sempre uma quadra abaixo da anterior, eu não conseguindo achar o sujeito de camisa amarela. Hoje recebi o que diziam ser o último trabalho: Avenida Quatorze de Julho com a Moraes Salles, “Aroma Floral.” Fui. A loja preferida, a mesma vitrine, com... um sujeito parado de camisa amarela? “Alguém pediu para avisá-lo” ”A senhora é Marta Medeiros?” “Sim, sou a encarregada pelo trabalho” Pegou em minha mão, me algemou e deu voz de prisão. “O que é isso?” “Vamos até sua casa, Dona Marta.”
Chegaram a casa com cinco viaturas, o delegado de camisa amarela e outros três investigadores. A vizinhança alarmada. “Mostre-me seu quarto.” Quando cheguei ao quarto, havia um cheiro forte. “Que cheiro é esse?” três cadáveres debaixo da cama, um dentro do colchão, todos em estado de putrefação. Meus bilhetes estavam encima da escrivaninha. “Pois é, Sargento Peçanha, a ligação anônima era verdadeira!” Desmaiei.
domingo, 11 de dezembro de 2005
A morte do deputado Cirino
O calor atravessara o vidro. Josefa abriu a janela. O corpo deitado na cama banhou-se de luz. A gorda trocou o velho sem cuidado nenhum, rebolando altos palavrões que a esclerose habitada na matéria do mesmo não dava a devida atenção aos seus significados. Na porta, em pé e atento a tudo, encontrava-se Murilo (Moleque de seus onze anos, regado de sardas e orelhas de abano). Quando a mulher desferiu tapas e golpes nas nádegas de seu vo reclamando da sujeira o garoto arregalou os olhos estupefato. “Que está olhando, pirralhinho? Quer levar umas bofetadas também?”
Cirino era deputado eleito por nove cidadelas, dono de boteco, pai exemplar. Se não fosse o contrato da criada feito pela filha mais velha, os cinco mandatos cumpridos e o sexto com dois terços, talvez agora estivesse servindo porções de torresmo para seus amigos, ao invés disso, sem reação apanha da empregada gorda na frente do neto. Nesse dia várias visitas foram feitas. A noticia havia se espalhado com êxito e o partido ameaçava um luto simbólico. Uma bolsa de sangue na cabeça chamava a atenção das visitas curiosas.
A casa era humilde, pois é claro. O resto era fazenda e gado. Muito capital. Na casa, a empregada, as duas filhas (A mais velha de nome Maria, divorciada por anos e a terceira ainda solteira de nome Maristela) de cinco e o neto, filho de Benedita que morrera em acidente.
No mesmo dia, à tarde, Cirino recebia a visita de Dr. Portugal, colega de infância. Levou livros do exército que liam juntos e alguns boletos bancários. Papeou durante horas na cadeira frente á cama sem reação nenhuma por parte do deputado tirando alguns gazes que se ouviam às vezes. No assunto de banco, no meio dele aliás, milagrosamente o deputado esboçou alguns grunhidos. “Meu deus! Josefa, Maria, Maristela, alguém! O deputado está falando!” Maria não estava na casa, mas as duas outras chamadas, a filha mais velha e a empregada apareceram. Fuzuê se formou até o silencio retornar. O velho abriu a boca devassadamente e ornou com o olhar em direção á Maristela: Sua puta vadia! E morreu gemendo após proferir estas palavras. O silencio permaneceu durante cinco minutos até o Dr. Portugal dizer “Vou chamar o Padre” Era costume do local.
Trancaram o quarto enquanto o padre não vinha. “O que aconteceu?” Murilo perguntava todo o tempo “Seu avo morreu, moleque.” O magrelinho foi até o campinho atrás da casa onde costumava empinar pipa com quem mais gostava nesse mundo. Sentou e chorou bastante. Na casa, pessoas telefonavam e o movimento era intenso. O cadáver não podia ser visto até o Padre chegar, o quarto continuava trancado. Duas horas e meia depois o padre chegou, abriram o quarto e a surpresa: o corpo sumiu.
O padre não acreditou e garantiu que uma das duas havia escondido o corpo sobre motivo desconhecido. Motivos? Não havia. As duas? Desmentiam. E agora? Quem passou por aqui? Alguém? Tinham a chave? Porque diabos???
O menino chegou logo depois todo vermelho e chorando muito. Os olhos cresceram para cima do garoto. “Estava o tempo todo no campinho.” Avisaram a cidade. Piadinhas e preocupação.
Murilo foi o mais afetado emocionalmente pelo roubo do cadáver. Não conseguia achar uma explicação em sua mente infantil. Tentou pensar e concluiu, cheio de raiva, que precisava pensar mais. Na casa apenas Josefa permanecia, sendo que Maristela havia saído e Maria ainda não havia chegado.
Murilo corria pela casa, bateu a cabeça duas ou três vezes de grito contínuo e choro extasiado. A gorda preparava o almoço numa bacia de água morna e rarefeita enquanto movimentava o quadril em tom de banha. “Moleque, não me cutuque. Continue seguindo a parede” e o próprio batia as caras sem compaixão. Andou até a cozinha tranqüilamente após os espasmos, pegou uma faca de próprio uso no descamar o peixe e ameaçou-a apontando com rosto de ódio. Ela apenas olhou:
- A vagabunda morta da sua mãe está vendo isso.
- Vou te matar.
- Moleque, guarda a faca vai, guarda a faca.
- Vou te matar.
- Criança filha da puta.
Enquanto o moleque tombava devido à correria, a gorda espreitava a panela. Pegou-a lentamente e desferiu um golpe na cabeça de Murilo que esguerniçou no chão engordurado. A impressão era que o mesmo caiu lentamente, mas na verdade caiu rápido. No chão, o sangue em pequena porção escorria de sua cabeça. Não chorava, nem gritava, muito menos desmaiara, apenas olhava para o teto fixamente.
A gorda arrastou-o ainda respirando até perto da dispensa (Um rastro caramujo de sangue). Ajoelhou sobre o corpo produzindo a imobilização e jogou sal, limão, vinagre e pimenta no ferimento enquanto o mesmo se debatia intensamente. Espremeu varias cebolas sobre o rosto expresso em dor e após mandar vários bofetões saiu direcionando-se até o banheiro.
Murilo levantou bem divagar, tateou a faca, pegou-a e apoiando-se foi até o banheiro. O pouco que conseguia abrir os olhos foi o suficiente para observar a posição da empregada que de porta aberta estava sentada na privada com as calças arriadas sem perceber a presença do palito de ódio ao lado da porta, ela ria intensamente. Girou, gritou e cravou a peixeira na testa dela ficando apenas com a ponta introduzida, fixa e horizontal. A gorda levantou em seguida foi tropeçando nas vestes de baixo até cair de cara no chão fazendo a faca atravessar toda a cabeça no engasgo do grito final.
Murilo ficou observando a cena e enojou com o cheiro forte de sangue, instantaneamente vomitando sobre o corpo de bruços logo em seguida.
Ouviu a porta. Era provavelmente a tia Maria. Trancou a porta do banheiro. Maria entrou na cozinha olhou as coisas pela metade e não percebeu as gotas de sangue no chão. Foi até o quarto da empregada, o seu quarto, até o quarto do Deputado estranhando estar trancado, o de Maristela, de Murilo. Tentou abrir a porta do banheiro. Bateu.
- Murilo?
- Sim.
- Cadê Josefa?
- Não sei.
- Como não sei?
- Foi na vendinha.
- ...
- Que cheiro é esse?
- ...
- Murilo?
Olhou para baixo e gritou. Seu sapato estava encharcado de sangue que transbordava por baixo da porta. Murilo abriu a porta e saiu correndo. Foi até o campinho procurar se livrar. Ouvia os afoazes vindos da casa. Logo Maristela chegaria e haveria padre também. Era costume do local. Se escondeu atrás da árvore, exatamente onde sua tia o esperava. Segurou o garoto pela orelha enorme branca, depois vermelhou. Berrava na orelha do Menino que estava ensopado de sangue de Josefa e não chorava, nem tinha reação. Sua tia pegou a chave do quarto de Cirino no bolso da empregada e surpreendeu com a falta do corpo ostentando uma cura aparente e passeio por aí. Ligou para a polícia e para o Padre. Murilo tentou se esconder embaixo da cama, mas percebeu um buraco de um metro de ponta a outra e escorregou sobre. Subiu um porão de repente.
Machucou-se um pouco e bateu as cinzas, cinzas? Estranhou e observou que as paredes possuíam entradas onde esqueletos e pedaços de corpo humano agora se encontravam em vidros mesclados a um cheiro forte de formol. Não enojou, pois nada mais o enojaria, jurou para si mesmo.
Seguiu reto pois o ambiente não era escuro devido a lâmpadas colocadas no chão. Encontrou um gordo medindo um corpo estirado no chão imundo. Era seu vô. O gordo olhou para Murilo, aquele moleque sardento, e nenhuma reação esboçaram. Vestia o corpo de Cirino com uma roupa de odalisca rosa lebre e batia pó-de-arroz com um algodão na face após a breve medição. Murilo olhava fixo. Foi até as estantes, pegou um vidro com olhos e língua em conserva atirando-os no chão em direção ao gordo. O gordo era caolho, pegou um dos olhos e chupou. Delicadamente pois dentro da boca do Deputado, fechando-a com paciência e delicadeza em seguida. Beijou a face do morto e cuspiu na mão, fez o sinal da cruz virou ao menino e disse: pois não?
Cirino era deputado eleito por nove cidadelas, dono de boteco, pai exemplar. Se não fosse o contrato da criada feito pela filha mais velha, os cinco mandatos cumpridos e o sexto com dois terços, talvez agora estivesse servindo porções de torresmo para seus amigos, ao invés disso, sem reação apanha da empregada gorda na frente do neto. Nesse dia várias visitas foram feitas. A noticia havia se espalhado com êxito e o partido ameaçava um luto simbólico. Uma bolsa de sangue na cabeça chamava a atenção das visitas curiosas.
A casa era humilde, pois é claro. O resto era fazenda e gado. Muito capital. Na casa, a empregada, as duas filhas (A mais velha de nome Maria, divorciada por anos e a terceira ainda solteira de nome Maristela) de cinco e o neto, filho de Benedita que morrera em acidente.
No mesmo dia, à tarde, Cirino recebia a visita de Dr. Portugal, colega de infância. Levou livros do exército que liam juntos e alguns boletos bancários. Papeou durante horas na cadeira frente á cama sem reação nenhuma por parte do deputado tirando alguns gazes que se ouviam às vezes. No assunto de banco, no meio dele aliás, milagrosamente o deputado esboçou alguns grunhidos. “Meu deus! Josefa, Maria, Maristela, alguém! O deputado está falando!” Maria não estava na casa, mas as duas outras chamadas, a filha mais velha e a empregada apareceram. Fuzuê se formou até o silencio retornar. O velho abriu a boca devassadamente e ornou com o olhar em direção á Maristela: Sua puta vadia! E morreu gemendo após proferir estas palavras. O silencio permaneceu durante cinco minutos até o Dr. Portugal dizer “Vou chamar o Padre” Era costume do local.
Trancaram o quarto enquanto o padre não vinha. “O que aconteceu?” Murilo perguntava todo o tempo “Seu avo morreu, moleque.” O magrelinho foi até o campinho atrás da casa onde costumava empinar pipa com quem mais gostava nesse mundo. Sentou e chorou bastante. Na casa, pessoas telefonavam e o movimento era intenso. O cadáver não podia ser visto até o Padre chegar, o quarto continuava trancado. Duas horas e meia depois o padre chegou, abriram o quarto e a surpresa: o corpo sumiu.
O padre não acreditou e garantiu que uma das duas havia escondido o corpo sobre motivo desconhecido. Motivos? Não havia. As duas? Desmentiam. E agora? Quem passou por aqui? Alguém? Tinham a chave? Porque diabos???
O menino chegou logo depois todo vermelho e chorando muito. Os olhos cresceram para cima do garoto. “Estava o tempo todo no campinho.” Avisaram a cidade. Piadinhas e preocupação.
Murilo foi o mais afetado emocionalmente pelo roubo do cadáver. Não conseguia achar uma explicação em sua mente infantil. Tentou pensar e concluiu, cheio de raiva, que precisava pensar mais. Na casa apenas Josefa permanecia, sendo que Maristela havia saído e Maria ainda não havia chegado.
Murilo corria pela casa, bateu a cabeça duas ou três vezes de grito contínuo e choro extasiado. A gorda preparava o almoço numa bacia de água morna e rarefeita enquanto movimentava o quadril em tom de banha. “Moleque, não me cutuque. Continue seguindo a parede” e o próprio batia as caras sem compaixão. Andou até a cozinha tranqüilamente após os espasmos, pegou uma faca de próprio uso no descamar o peixe e ameaçou-a apontando com rosto de ódio. Ela apenas olhou:
- A vagabunda morta da sua mãe está vendo isso.
- Vou te matar.
- Moleque, guarda a faca vai, guarda a faca.
- Vou te matar.
- Criança filha da puta.
Enquanto o moleque tombava devido à correria, a gorda espreitava a panela. Pegou-a lentamente e desferiu um golpe na cabeça de Murilo que esguerniçou no chão engordurado. A impressão era que o mesmo caiu lentamente, mas na verdade caiu rápido. No chão, o sangue em pequena porção escorria de sua cabeça. Não chorava, nem gritava, muito menos desmaiara, apenas olhava para o teto fixamente.
A gorda arrastou-o ainda respirando até perto da dispensa (Um rastro caramujo de sangue). Ajoelhou sobre o corpo produzindo a imobilização e jogou sal, limão, vinagre e pimenta no ferimento enquanto o mesmo se debatia intensamente. Espremeu varias cebolas sobre o rosto expresso em dor e após mandar vários bofetões saiu direcionando-se até o banheiro.
Murilo levantou bem divagar, tateou a faca, pegou-a e apoiando-se foi até o banheiro. O pouco que conseguia abrir os olhos foi o suficiente para observar a posição da empregada que de porta aberta estava sentada na privada com as calças arriadas sem perceber a presença do palito de ódio ao lado da porta, ela ria intensamente. Girou, gritou e cravou a peixeira na testa dela ficando apenas com a ponta introduzida, fixa e horizontal. A gorda levantou em seguida foi tropeçando nas vestes de baixo até cair de cara no chão fazendo a faca atravessar toda a cabeça no engasgo do grito final.
Murilo ficou observando a cena e enojou com o cheiro forte de sangue, instantaneamente vomitando sobre o corpo de bruços logo em seguida.
Ouviu a porta. Era provavelmente a tia Maria. Trancou a porta do banheiro. Maria entrou na cozinha olhou as coisas pela metade e não percebeu as gotas de sangue no chão. Foi até o quarto da empregada, o seu quarto, até o quarto do Deputado estranhando estar trancado, o de Maristela, de Murilo. Tentou abrir a porta do banheiro. Bateu.
- Murilo?
- Sim.
- Cadê Josefa?
- Não sei.
- Como não sei?
- Foi na vendinha.
- ...
- Que cheiro é esse?
- ...
- Murilo?
Olhou para baixo e gritou. Seu sapato estava encharcado de sangue que transbordava por baixo da porta. Murilo abriu a porta e saiu correndo. Foi até o campinho procurar se livrar. Ouvia os afoazes vindos da casa. Logo Maristela chegaria e haveria padre também. Era costume do local. Se escondeu atrás da árvore, exatamente onde sua tia o esperava. Segurou o garoto pela orelha enorme branca, depois vermelhou. Berrava na orelha do Menino que estava ensopado de sangue de Josefa e não chorava, nem tinha reação. Sua tia pegou a chave do quarto de Cirino no bolso da empregada e surpreendeu com a falta do corpo ostentando uma cura aparente e passeio por aí. Ligou para a polícia e para o Padre. Murilo tentou se esconder embaixo da cama, mas percebeu um buraco de um metro de ponta a outra e escorregou sobre. Subiu um porão de repente.
Machucou-se um pouco e bateu as cinzas, cinzas? Estranhou e observou que as paredes possuíam entradas onde esqueletos e pedaços de corpo humano agora se encontravam em vidros mesclados a um cheiro forte de formol. Não enojou, pois nada mais o enojaria, jurou para si mesmo.
Seguiu reto pois o ambiente não era escuro devido a lâmpadas colocadas no chão. Encontrou um gordo medindo um corpo estirado no chão imundo. Era seu vô. O gordo olhou para Murilo, aquele moleque sardento, e nenhuma reação esboçaram. Vestia o corpo de Cirino com uma roupa de odalisca rosa lebre e batia pó-de-arroz com um algodão na face após a breve medição. Murilo olhava fixo. Foi até as estantes, pegou um vidro com olhos e língua em conserva atirando-os no chão em direção ao gordo. O gordo era caolho, pegou um dos olhos e chupou. Delicadamente pois dentro da boca do Deputado, fechando-a com paciência e delicadeza em seguida. Beijou a face do morto e cuspiu na mão, fez o sinal da cruz virou ao menino e disse: pois não?
A cura
Lembro-me bem de Benedito. Acordava ás cinco da matina em sua casa sem cômodos no sitio onde não se via figura humana a par de dezessetes léguas, tomava café, fazia pequenos carinhos no cão de nome Vlado e ouvia rádio antes de sair para capinar. Podia ser uma cena bucólica dos anos vinte, mas era nos tempos de agora.
Conheci-o há dois anos atrás e ele jurava ter em mãos o que podia ser o controle da humanidade ou ao menos sua salvação, conforme a índole do portador. Contou-me a história bem devagar, não sei se me lembrarei corretamente, mas tentarei registrar neste breve conto.
É fato que num dia que acordou como este, como todos os outros aliás, foi capinar em companhia do cão Vlado que fedia não tanto como ele. Cenoura, batata, beterraba e hortaliças eram cultivadas para serem vendidas na cidade próxima. “Menino, andei por ali, por aqui e é qui vi no meio das batatas um pézinho meio chucro meio não e estranho. Não sou de matar vegetal a não ser praga pur isso dexei por ali mesmo, sabe?” e fazia um “hum” depois que falava qualquer coisa. Passou um tempo e o velho recebeu duas visitas na mesma semana, fato esse dito ele como único. “Menino, um era forte, tinha um lenço das forças armadas (?), um sapato estranho de jeito que nunca vi e uma barbicha loira. Devia ter colorido. Hum.Isso foi na terça. Preguntô se eu sabia como sarar sua mulhé que sofria du quê memo, hum, há, hum, era miningite, acho. ” Benedito proferia palavras comuns e entediantes para se dizer a verdade, mas eu estava mesmo naquela praça e não tinha nada a fazer. “O outro, um jovem...” – claro, comparado a ele quase todo mundo era jovem - “...De chapéu, de cavalo e com lágrimas na cara pediu preu falar uma receita ou fazer uma oração pro fio dele que nem mi lembro que duença tinha. Falei, ói, oração eu até faço, mas receita num sei não.” Dei risada nessa hora e ele pareceu ficar puto. “Olha menino, não gosto de tração de sarro não. Dois dias depois o home de cavalo voltou e agradeceu pusque o fio tinha sarado. Depois disso num parava de vim gente das cidadela do local” E aí, sarou mais alguém? Perguntei de sacanagem. “Num sarei não. Mas, num parava de vim gente. Tantas gente que até insqueci das minha prantação. Tava tudo morto, uma disgraça. Inclusive meu cão Vlado que morreu com espuma na boca, só tava vivo o pé esquisito que já tava dano umas frutinha laranja e redondinha cum várias sementinha minúscula adentro.” Como você sabia das sementes? “Fiz um suco pra vê o gosto.Tinha um sabor azedinho bom...” E? “E que nesses dia que apareceu gente pra cacete em casa, três caboclo chegaro desesperado que um deles tinha tomado mordida feia de escurpião e já tava agonizando pra morrê. Dei o suquinho á mó dele carmá e o diabo sarô. Hum. Veio o padre da paróquia, muitos fiéis e minha vida infernô de veis. Agora eu vendo essas bolinha prá região.” E mostrou-as pra mim. Dei um bocejo e saí.
Faz dois anos que não vejo Benedito. Dizem que se mudou ou morreu envenenado junto a uma parcela de gente da região.
Conheci-o há dois anos atrás e ele jurava ter em mãos o que podia ser o controle da humanidade ou ao menos sua salvação, conforme a índole do portador. Contou-me a história bem devagar, não sei se me lembrarei corretamente, mas tentarei registrar neste breve conto.
É fato que num dia que acordou como este, como todos os outros aliás, foi capinar em companhia do cão Vlado que fedia não tanto como ele. Cenoura, batata, beterraba e hortaliças eram cultivadas para serem vendidas na cidade próxima. “Menino, andei por ali, por aqui e é qui vi no meio das batatas um pézinho meio chucro meio não e estranho. Não sou de matar vegetal a não ser praga pur isso dexei por ali mesmo, sabe?” e fazia um “hum” depois que falava qualquer coisa. Passou um tempo e o velho recebeu duas visitas na mesma semana, fato esse dito ele como único. “Menino, um era forte, tinha um lenço das forças armadas (?), um sapato estranho de jeito que nunca vi e uma barbicha loira. Devia ter colorido. Hum.Isso foi na terça. Preguntô se eu sabia como sarar sua mulhé que sofria du quê memo, hum, há, hum, era miningite, acho. ” Benedito proferia palavras comuns e entediantes para se dizer a verdade, mas eu estava mesmo naquela praça e não tinha nada a fazer. “O outro, um jovem...” – claro, comparado a ele quase todo mundo era jovem - “...De chapéu, de cavalo e com lágrimas na cara pediu preu falar uma receita ou fazer uma oração pro fio dele que nem mi lembro que duença tinha. Falei, ói, oração eu até faço, mas receita num sei não.” Dei risada nessa hora e ele pareceu ficar puto. “Olha menino, não gosto de tração de sarro não. Dois dias depois o home de cavalo voltou e agradeceu pusque o fio tinha sarado. Depois disso num parava de vim gente das cidadela do local” E aí, sarou mais alguém? Perguntei de sacanagem. “Num sarei não. Mas, num parava de vim gente. Tantas gente que até insqueci das minha prantação. Tava tudo morto, uma disgraça. Inclusive meu cão Vlado que morreu com espuma na boca, só tava vivo o pé esquisito que já tava dano umas frutinha laranja e redondinha cum várias sementinha minúscula adentro.” Como você sabia das sementes? “Fiz um suco pra vê o gosto.Tinha um sabor azedinho bom...” E? “E que nesses dia que apareceu gente pra cacete em casa, três caboclo chegaro desesperado que um deles tinha tomado mordida feia de escurpião e já tava agonizando pra morrê. Dei o suquinho á mó dele carmá e o diabo sarô. Hum. Veio o padre da paróquia, muitos fiéis e minha vida infernô de veis. Agora eu vendo essas bolinha prá região.” E mostrou-as pra mim. Dei um bocejo e saí.
Faz dois anos que não vejo Benedito. Dizem que se mudou ou morreu envenenado junto a uma parcela de gente da região.
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