sábado, 8 de agosto de 2009

Ainda acho que os anos nos remetem ao número 27

Cada vez que eu podia passar um tempo, que podia passar por aquela praça daquela cidade vizinha, sobretudo á noite, percebia que sou o mesmo durante o dia, comum e corriqueiro. Não falo de alterados estados, de romantismo barato ou de nada. Quero a escrita consciente, o fato verídico de face moldada. Frio dia de ida. É evidente que quando me ponho á caminhar o que se sente é esse estado ambulatório, passos, falo de que em um determinado momento deixamos de participar desse mundo primário do que nos diz respeito á cidade. Os signos do descobrimento aleatório. As categorias lógicas de que o tempo muda. As pessoas recorrem á lugares inquietantes, galerias cobertas, igrejas sem silêncio. E que Cortazar foi um homem necessário para a humanidade. Queria poder afirmar melhor essas tais impressões. Mas tentativas não deixam de sê-las por somente elas. E por que não a barba e o cabelo te perguntam. E porque não a barba e o cabelo? Tente responder tal pergunta complexa. De não adianto. Óculos de armação laranjada e transparente em lentes enormes. Barbas no calor. As mãos em calo de caneta. Não sei estar sendo suficientemente claro. A devida carne branca se impondo aos milhares que compassivos a olha distante para nossos olhos suficientemente redondos. Olhos redondos. Os olhos das letras e das artes que nos interessa. Temos várias linguagens para vender, jovem escrivão. Grato, fico com essa. É-me mais entinta. Íntima. Amostras? Deixe ali encima da mesa, já olho, estou ocupado aqui não querendo ser estético. Não vejo espuma na sua bebida, ela escorre pelo canto da boca semi-aberta. Um livro violentamente doce golpeia minhas narinas. Ainda não lembro o nome da autora, é russa, disso me lembro, e é um livro comunista. Tem cheiro de rosas com urina. Urina feminina na face do homem, sem barba, entende, não entende, não sei mais o quê digo, chacoalhando a cabeça para afastar jogos de armar infantis. Já fomos advertidos milhares de vezes sobre o imperialismo norte-americano e a vergonha nos fez deixá-lo sucumbir aos poucos, como é de sua natureza constatada. Como quem leva uma bofetada na face e nada faz. Espera a vingança com o passar dos dias, em alerta sobre novas. Corte meu azar. Não há nada que você possa fazer com sua força, pois acho que os anos nos remetem ao número vinte e sete e não há nada que possamos fazer sobre isso sobre nada podemos. Todos querem a chave do carro caro, meu caro. Sempre o caro. O começo da estrada, a estrada começa num circo logo encima de sua cabeça, nossa descendência portuguesa não nega. E se nossas letras fossem desenhos. E desenhos fossem letras nossas. E que tais desenhos combinados gerassem histórias. Histórias de olhos redondos e de carne passada. Branca e fosca. Veias negras ou azuladas. Mais abaixo tem um coração, deixe-lhe comprar um pé de porco com cerveja quente, faço questão ele me disse. Conversamos sobre Cortazar novamente, não consigo falar de outra coisa no momento, me desculpe. Seu perfume impregna as paredes de minha consciência como uma fábula contada pela metade. Uma montanha negra de provérbios, descidos pela garganta empurrada com dialéticas baratas. Minhas baratas dialéticas. Por que tem um sino batendo, por que tem um homem correndo com sangue na camisa. Por que há campeões esbarrando em borracha, porque há metais pesados correndo em nossos pulmões. O dia de hoje não passará por essa porta, pode tentar joga-lo quantas vezes quiser. Deixo-a ir e ela volta. Seguro e ela se vai. Eu não acredito mais no quê digo, eu não sei se os convites devem chegar por carta ou telefone ou por sons de vidro da rua, a mesma rua que não me convida mais como antes. Tem som no lugar que estou, estou sozinho, estou acompanhado de milhares de gerações á minhas costas. Quem pode ser nesse dia de hoje senão nossos próprios pais afastados de diferentes tipos de escória. Nós somos as escórias. Nós somos o não ligar de ser congelado pela história. Congelado pelos atos que passam. Passam. Olho minhas mãos, seguro uma na outra, esfrego, sinto o cheiro de carne e sangue ditador, de raça maldita, sanguinária na preferência de balas, na preferência de mortes por empalamento. Não culpemos os assírios. Usamos mais. Onde uma rata se enobrece, tem bandeiras sobre-humanas e cantam hinos e alguém o prende, seu grande filho de uma puta, com uma medalha no peito. Uma região de mãos sujas, pincéis nos cabelos, meninos de dentes podres e boca arreganhada.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Prisioneiro de Guerra

Havia mais de oito antagonismos em suas cartas, ele tinha uma roupinha ridícula de marinheiro, estava deitado na mesa com um copo de vinho ordinário que movimentava tal um brinde escuso para espantar as moscas que pousavam de cócoras botando ovos em seus cabelos. Alguém se aproximou. Conheço você, eu conheço você. Qual a diferença? Diga um óla e um adeus olhando nos olhos. Seus olhos estavam tortos, descarregara toda a urina nas coxas, escorrendo até o sapato; Gritos. Levantou, equilibrou. Eu conheço você, você me conhece. O ambiente parecia ter sido tirado de uma animação de Alexander Petrov. Sentaram para tirar satisfações. Fui acordado dessas memórias por um murro na beliche. Éramos despertos sempre ás cinco para recebermos a nossa quantia diária de pão, seco, murcho, enbostiado e colorido de fungos, mas pão; As prisões da Tchecoslováquia na década de 40 para estrangeiros eram menos que cinzentas, eu era (sou?) português de Caldas da Rainha, de Leiria, cidade recente porém decente. Dê-me um beijo, que diferença faz isso, apenas me dê, nunca mais a vi. Fui receptado em minha casa. Trabalhava de funileiro na rua principal, auxiliar diria. Outra batida no beliche, vários, somavam mais de vinte. Banho geral gelado, cuidado, não podemos atropeçar por nada desse mundo. Poderíamos ser animais, eu seria um peixe, o theco um gato, o frânces prisioneiro um sapo. Gertrô, meu amigo. Roubava cigarros para trocar por comida clandestinamente. Os antagonismos de que falo são de cartas da minha mulher, tão gorda de carnes que acordo transando com a cama, ás vezes com o travesseiro e ás vezes com o membro ereto nas mãos, sem flexioná-lo, sem me masturbar, nada, apenas com ele nas mãos e os companheiros olhando com ar de reprovação, indignados. Estamos presos e não há diferenças de cores e nações. Um por semana é executado da seguinte forma: são escolhidos num jogo funesto, um jogo onde somos postos em fila da qualsete são escolhidos, geralmente os mais magros e fracos, pois não podem trabalhar, sendo obrigados a virar uma garrafa cada um, depois outra, depois outra, até o primeiro desmaiar e em consequência levar um tiro em cada perna, ainda no chão e depois uma bala firme na cabeça. Já vi casos de pessoas tão embriagadas que nem gritavam com o tiro nas pernas. Isso irritava os oficiais, que faziam questão de perfurar o corpo como um queijo suíço antes da bala fatal. Fui escolhido duas vezes, estivera doente por um período e escapei com vida, felizmente. Haviam apresentações vez ou outra de grupos circenses, escolhidos á regalia do comandante geral, coisas horríveis que eramos obrigados a ver. Havia uma sala de execução que ficava no meio do caminho do banheiro, aonde os porcalhões não recolhiam os cadáveres dos executados e ás vezes tinhamos que pisar naquela carne mole, com medo de escorregar e com os pensamentos voltados no fato que um dia poderia ser eu ali, sendo pisoteado também. Jogávamos carta vez ou outra, mas tínhamos que descartá-las nas nossas bocas quando um oficial passava. Vestia grinalda, era conhecido como Mafalda. Chamava um dos presos para ir em sua sala, quando retornava parecia abatido, mais triste. Nunca perguntávamos o quê ele ia fazer lá. Hoje tenho nacionalidade romena, álibe de refugiado, rugas no rabo. Ainda bem que aquela merda foi dividida em dois países, ainda penso enquanto reflito na latrina.

terça-feira, 28 de julho de 2009

O Abilolado (Pequeno momento cênico)

Peça para ser apresentada durante o intervalo de uma apresentação cênica, sem aviso prévio que a mesma ocorrerá.

Damásio (personagem principal)
Hermínia (Puta)
Rav (O detetive)
Zenaang ( O leme)
Ed ( O herói)

Cena única
Rav - Precisamos descobrir.
Damásio - Já descobrimos.
Rav - Como dito tá aí. Ela castiga as entranhas, anhas, anhas.
Damásio - Vejo-lhe puta.
Hermínia - Olá, oi, me aparto. És lícito saberes do meu parto?
Zeenang - Sabemos.
Damásio - Saibamos... Foi de aparecer costelando ecunbrências.
Rav - Não quero rimas.
Damásio - Não ás terá. A puta que vos falo sadeifica.
Hermínia - Não sei se é lícito por o nome de Sábado.
Zeenang - Talvez.
Rav - Bom dia é bom nome.
Zeenang - Não é breve. Moto passou aqui e desejou vidro.
Rav - Não quero saber de rimas.
Zeenang - Vidro tenho.
Damásio - Envoque o nazareno.
Zeenang- Bati a cabeça.
Damásio - Sangrou? Esbareijo, por quê nos proíbem.
Hermínia - Conselhos. Castiga as entranhas, anhas, anhas. Me passou rápido.
Damásio - Sei como é.
Zeenang - Façamos não sei como. Não dá pra imaginar se servirá.
Ed- Eu vim como o outro e da minha pessoa confiarás.
Damásio - Quem és tu?
Ed - ED, O JUSTO.
Hermínia - Hoje lambisquei os seis de fadonha.
Ed - a rima é fraca, os olhos puros. Vá para o lado
Zeenang - Eba (vai para o lado)
Damásio - Oba (vai para o lado)
Rav - Leve ele, breve.
Ed- consertado ficou, consertado está. Adeus.
Damádio - E o quintal?
Ed- Chame um carpinteiro e lave-se de imediato.

FIM

domingo, 19 de julho de 2009

Postagem 111

Na técnica e discordância é preciso mais do que a espera. A palavra não seria bem depressivo. Seria não saber a palavra. Mais forte que a palavra é o que vem junto dela. Mais forte que a palavra é o que vem junto dela, é o que vem dela. Mais forte que a palavra é o que junto vem dela. O que vem junto dela.Agora me encontraria? Não, o correto é agora me encontrarei e talvez saindo dessa palavra encontre a serenidade. Forçar a minha própria forca. Fechei alguns silêncios, cliques e diminuições para me encontrar como sempre: a passos rápidos. Tome um riso na cara. de faca. Se for internada, voltaremos somente á noite.A composição se desenvolve na redundância, pois quebrei o assoalho do chão com um taco de golfe em dois fragmentos. Um grande. Outro dois terços. Quantas coisas feitas em cor de banana. Fui embora levando estalos na orelha e ainda era por outro motivo. Seu cabelo era crespo e roupas conhecidas pelo esteriótipo. Parecia que ia oferecer artesanato hippie, mas só tinha uma mala. Ofereceu um gibi. Contei apenas oito árvores. Todas diferentes. Qual foi a melhor trepada de sua vida? Meio quilo de carne moída, seis claras de ovos em um vaso de gargalo fino. Contei apenas oito árvores e já havia andado oitenta e seis quilômetros.Um homem corre com sangue na camisa. na camisa um homem corre em sangue. o homem corre na camisa. o homem corre. há sangue na camisa. há sangue no homem. que corre. A carta de um morto vista antes de saber que estava realmente morto, antes de saber que vivia para um dia estar morto, era escrita pensando no enforcamento. Seria doloroso? Existem pessoas que arranham o pescoço desistindo de última hora. Escrevia para depois se matar e nunca mais parou de escrever. é mais um dia comum sem o café no açucar concorrendo á informações. conhecendo os códigos do dia. Brasas sujam a sala porcamente e me viro mais para a esquerda em direção ao feixo de luz que deve, pode, (não sei), vir do sol. É mais um dia comum. E se nos bastasse, já vai o tempo em que a gente podia ser comum. Herbácias no meio do dia, cara e âmagos e seu ventre que beijo e idolatro cego e infantil fedendo a cigarro fedendo a escarro a campainha o cachorro o carro meu chinelo a vassoura encostada na pia ao abrigo de aracnídios. é mais um dia comum. E se não bastasse, já vai o tempo em que a gente podia ser comum. O espaço bonito flagelou o homem simples que estava de terno terno. Vou jogar uma bomba nessa bateria que não é poesia, não é alegria, não tenho tanta alergia vadia maria. Coças a barba, nariguda? Sabes que não sou portuga e não me escondo. Bateste no meu cacete com tão demasiada força que sucumbi. Me apertaste tanto o caraco que sorri de velho. Pega no balango. Finge que é lango-lango. Ontem mesmo eu tentei tanto te procurar, mas outro ser te empetecia. Olhos seus olhos; me olhe o olho lúgubre, luz, lanterna, se valha a navalha lhama. Se Dharma chama reclama o olho-lago que a espera é longa que o ato é falho. Quisesse você ser uma espátula e suas lentes corretivas fossem ovos, eu choraria. eu chororovos.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

A surpresa da realidade

Estava pensando sobre uma declaração que li sobre um escritor que dizia ter-se salvo por parar de escrever "literatura" e passar a narrar fatos da realidade com frases simples, diretas e objetivas. Casos que contavam seu amigos ou fatos que o próprio tinha vivido. Os conceitos e idéias substituídos pela vitalidade. A salvação através da tentativa do espelho. O romance é na verdade sensorial em essência. Pensando em escrever ensaios por capricho, comecei essas palavras podres pensando que tal tema poderia ser um estudo sobre esse gênero para que eu possa começar a trabalhar nele. Acabo de ver algo na televisão: A pessoa tem três filmes, oito livros editados e cinco séries de Tv escrita por ela. Sinal de sucesso comercial? Me desculpe a merda cabeçal, mas ninguém pode escrever nada de bom tendo sucesso em vida, por enquanto não vi exceções a não ser algumas raras em termos de romance, aliás, as coisas realmente boas estão ainda nas gavetas, coisas de avôs, destruídas, mortas, nas mãos erradas, mal escritas caligraficamente ou então, atualmente, deletadas. A vergonha é o sinal de que a coisa está pura e bonita. Falando em bonita, há uma concepção em cada um de nós, talvez a minha mais próxima seja a de Baudelaire, francesinho, que é ela ter imortalidade e ao mesmo tempo característica mortal, deve ser histórica em termos de geração, porém sem a concepção de perfeição geométrica, que tanto defendem os que tentam universalizar a beleza. A beleza não é geométrica, ela é irregular. A maior prova disso é que algo realmente belo é circunstancial. A imortalidade de um segundo. A transformação da massa em termos pessoais, moldadas com o tempo daquele mesmo momento. Pro diabo com os formalistas russos.Impossível saber também a linha de pensamento de cada leitor de um texto. O resultado de tudo é a soma dos fatores intrínsecos ao texto com a capacidade imaginativa do leitor. As variantes são quase infinitas. E a projeção do leitor preenche os vazios do texto. Por isso tantos finais sem conclusão no realismo fizeram-se notáveis.As hipóteses levantadas pelo autor são como opções de uma prova vestibular, a grosso modo (desculpe a tosca comparação, mas serve), aonde não há respostas certas, porém a questão pode estar fechada (a,b,c,d,etc) ou aberta (escrita livre), esse último resultado extremamente complexo na obtenção, deixando apenas seu porte para os vulgos grandes escritores. Meu mestre, Sandro, dizia sempre um negócio que me impregnou de um modo que luto até hoje pra me ver longe disso: Grandes escritores escrevem frases de mais de uma página e meia. Não é bem verdade, vejo hoje, mas ele também dizia, assim como Ubaldo Ribeiro, que livros bons são livros que param em pé. Era um tarado esse meu professor, isso sim. Babava letras pela cueca. Tenho pensado muito em manias para escrever e estou procurando uma atualmente, rio muito com elas, as que já existem e que tem dono, na verdade acho todas românticas demais, pensei em várias, igualmente bregas. Estou pensando em pagar prostitutas para escrever sobre seus corpos, sobre folhas amassadas. Não tocá-las nem nada. Apenas escrever. Imagino as reações e consequências. De qualquer modo, ao final, talvez eu obtenha um livro caro e de bom cheiro, escrito inteiro sobre o corpo de uma mulher deitada, nua e triste.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Márcia

Márcia tinha cabelos lisos, pretos, na altura dos ombros e escorridos como óleo frio que rudavam nos dedos quando eu tentava fazer um carinho no couro. O couro do sofá que estávamos deitados parecia absorver todo o nosso suor de poucos pudores e de farta preguiça. O sol batia tão quente na janela do meio datarde que tentávamos procurar um lugar em comum no sofá que não atesse o sol generoso. Isso nos deixava mais próximos. Seu pai era frânces, sua mãe indonesa, e haviam tantas gerações em suas costas que tantas histórias não se igualariam ás histórias refletidas em seus olhos. Ela nunca me respondeu, permanecia calada, passiva e precisa nos gestos quando se levantava do sofá para negociar um café com um dos índividuos que morava comigo na cozinha, voltava rindo de seu moicano. A liberdade da tribo que falava francês e lutava como ninguém. Discursava então sobre como os índios do norte tanto lutaram e os do sul sempre foram cabisbaixos aos caprichos espanhóis e portugueses. Márcia tinha uma verruga no canto da boca, do lado esquerdo, com alguns pêlos. Enquanto eu quase pegava no sono observava ela cuspindo, ou melhor, passando baba nos dedos para enrolar os três fios de pêlo que despontavam dessa verruga. Parecia pensar sobre o passado, ou sobre previsões do futuro. Já tinhamos conversado que não havia futuro para ambos, que estávamos naqueles viveres por pura gozação momentânia e acho que aquilo no fundo aborrecia a ambos. O fato de sabermos que não demoraria muito não ficaríamos mais juntos. Quando ela se colocava de pé a minha vontade era de cair de joelhos e tentar entender porque o fato de estar tão preso á ela me feria tanto. Também sempre a dizia que eu tinha sorte e muita afeição com nomes terminados com uma consoante seguida da vogal a, e que nunca me dava bem com pessoas cujo nome terminavam com uma consoante isolada, porém essa era uma regra com mulheres. Ela sorria e dizia que no caso dela eram duas vogais no final, eu cerrava os lábios a fim de ser compreendido. Seria ela uma exceção? Não, ambos sabíamos que nossa história não tinha relevância e isso nos maltratava. Gostava dela, e ela gostava de mim, nunca dissemos nada disso para o outro, as pequenas cochiladas á tarde bastavam e dentro dessa certeza de uma pseudo-relação sem futuro, e que essa sina não poderia ser mudada continuávamos até o dia em que ambos nos saturaríamos e esse dia nunca chegava. Recordo-me de que ás vezes eu a olhava fazendo compras e a julgava muito feia, um corpo pequeno, meio gordo, um jeito de criança. Engraçado os diferentes olhares que damos á alguém intimo quando sozinhos, olhando a pessoa de longe. Imaginando estarmos com essa pessoa. Costumava flagrar, sem que a mesma percebesse, quando me olhava também desse modo particular e cíclico em meus momentos de ociosidade, sempre generosos, em frente ao computador. A julgava feia nesses meus momentos de análise, porém nos momentos em que ela estava deitada, á meia luz, enquanto eu passava meus dedos em seus cabelos ensebados, olhando-a nos olhos, julgava se tratar de uma das belezas mais notáveis desse mundo. Márcia, aonde anda, aonde bebe, com quem janta nesse exato momento? Vai pra ti uma partícula do meu pensamento, o estalo do isqueiro no meu cigarro, um clarão de pequena saudade fingida, essas palavras despojadas de interesses.

terça-feira, 16 de junho de 2009

A crua Dádiva

Essa mesa está meio solta. Talvez tenha que parafusar melhor. A cadeira está meio capenga. Ou não quer suportar peso - não sei se ando gordo; devido á esta nova condição - ou são as ripas desgastadas? Da velha madeira que constitui. O papel está bem aqui. Na minha frente agora perturbável. Titilando a coloração sobre nariz. Caneta carregada de tinta preta. Vontade menos dispersa que antes. A preguiça descorroída, então discursemos... As informações que eu tenho: me ultrapassam á memória vaga. Para dois longos anos atrás. Eu andava pela rua baixa. O barulho da minha blusa. Ela chacoalhava em sutil sintonia. Com o mesmo chacoalhar feito: caixa de fósforos no bolso. Sonora enquanto um frio percorria. Os espaços de som ausente. Carne da blusa não tocava: a minha mesma longa carne. Tinha combinado encontrar uma amiga. No centro daquela pequena cidade. Caminhava lento com fronte renegada. Um carro parou perguntando direções. Expliquei sobre a procurada rua. Estava quatro quadras dele certamente. Perguntou-me mais algumas vezes mais. Dizia ser de uma cidade longínqua. Cento e quarenta quilômetros dali. Expus as quatro quadras novamente. Quando ele me interrompeu perguntando: se eu não poderia acompanhá-lo. Entrar no carro e levá-lo. Até lá, a rua pretendida. Sorri e disse que não. Firmou o argumento dizendo que: depois me levaria ao lugar. O lugar que eu iria. Assim que mostrasse a rua. Mostrei pressa, disse que não. Afirmei o lugar da rua. E me pus a caminhar. Menos de duas quadras depois (ao atravessar a rua velozmente) vi o mesmo carro contornando. Parou em minha frente brecando. Então sorrindo largo me disse: passei do lugar, não é? Nada respondi, atravessei a rua. O carro não veio mais. Respirei aliviado, livre de esquisitices. Cheguei na casa da amiga. Vi o movimento na entrada. Havia quatro pessoas, em círculo. Todos de dezessete anos cada. Ou não passando muito disso. Fumavam cigarros filtro vermelho. Baratos e os conhecia pouco. De vista eu diria melhor. Saudamo-nos e despontou minha amiga. Ficou na porta me olhando. Cumprimentou com um gesto cortês. De um quadro de Matisse. Ainda não acabado, realista então. Sabia de quem eu perguntaria. Disse sobre quem eu procurava hoje. Que estava escondida ali atrás. Na direção de um carro. Duvidei da veracidade do fato. Olhamos por uns dois minutos. Olhamos em direção ao carro. Mostrava nenhum movimento ou barulho. Achei ser brincadeira da outra. Uma menina, prima de minha amiga: foi até lá investigar, abelhenta. Ela saiu sorrindo do carro. Caçoamos da infantilidade sendo rudes. Entramos em seu quarto aromatizado. Quem esperei, ela, seu irmão. Seu quarto era todo escrito. Á caneta hidrográfica na parede. Gizes de cera e canetinhas. Recados, máximas e desenhos diversos. Desligou o computador com raiva. Disse ir tomar um banho. Precipitamos-nos até a praça central. Havia uma na pequena cidade. Conversamos um pouco, fumamos cigarro. Tenho crises de querer ir embora. Fui com sede de cerveja. Com o mesmo andar apressado. Chacoalho dos fósforos e blusa. Estava decidido a comer lanche. Tinha fome e nenhuma esperança. Pra minha surpresa encontrei lanchonetes. Duvidava estarem abertas no bairro. A praça estava vazia, feriado. Os bares fechados esperando amanhã. Mas esse bairro era rico. Tinha mais de quatro possibilidades. Na primeira já encontrei conhecidos. Fique muito feliz, havia amigos. Um que também escrevia frequentemente. Estava nesse ofício no guardanapo. Terminou com a boca suja. Suja de tomate do lanche. Mostrou com uma vontade morna: “Primeiro você se torna forte/ a mãe fumaça consome seca/ eu nunca lembro de números/e de umas boas piadas. Eu conheço um jeito narrativo/ de nadar até a cidade/ tem monte de gente nadando/ primeiro mova sua cabeça leve/ é fácil pra você né?/ se você tiver mãos, braços/ é fácil pra você querida,/ por que não tentar agora? Eu vou até o jardim/ tem vários feijões no chão/ doce, como os caminhos são/ quando vai pela primeira vez.” Elogiei, me deu o guardanapo. Por isso agora escrevo certo. Tenho certeza, a memória falharia. Pedi um copo, nova cerveja. Duas pessoas eu não conhecia. Éramos seis na mesa contando. Apresentaram-se ou me apresentaram, acho. Não me lembro muito bem. Um deles parecia muito bêbado. Puxou assunto á qualquer modo. Dizia ter um dom válido. Via cicatrizes, cicatrizes nas pessoas. Apontou pessoas diversas ao léu. Disse sobre o mais ferido: era um sujeito ali perto. Explicou a aparência da cicatriz: vinha do fim do pescoço. Até perto do umbigo, quase. Fazia uma grande curva riscada. Ela ainda sangrava muito bem. E tingia toda a camisa. Quando se levantava para ir, sair - até o banheiro, normalmente seria - sangue pingava de suas mãos. Deixando gotas no seu caminhar. As marcas dos sapatos tingidas. Tingidas de sangue no chão. A cada passo dado novamente. Ferida acabrunhada de cinco meses. Muito cutucada como ele notara. Havia sido ferido bem gravemente. Que tornava quase impossível estancamento. Ainda mais em prazo curto. Chutou dois anos e meio. Apontou dessa vez uma mulher. Na base dos cinqüenta anos. Uma cicatriz no seu ombro. Meio cinza e bem fechada. Disse sobre cada parte do corpo: Era responsável por um sentimento. “Humano”, ele me disse claramente. Quis saber melhor eu acho. Disse-me que eu não entenderia. Passou a descrever outras cicatrizes. Fechadas ou não sem diferença. Seus olhos fulguravam-se conforme falava. Passava a rodar as órbitas. Tinha sentido em suas considerações. Via como lhe saltavam feitos. Com a maior naturalidade desapercebida. Puxou um cigarro do maço. Olhou-me como quem analisa curioso. Torceu as narinas fungando-as rapidamente. Digo forçado esse pequeno sorriso. Colocou na barbicha os dedos. O polegar e o indicador juntos. Numa forma de V torto. Perguntei o quê via agora. Disse-me que não julgava ético. Pare de ababolhações, meu amigo. Tal chamativa não tirou propósito. Agora a figura não falava. Calou e conversava com outro. Tentei esquecer o assunto, certamente. Ficamos mais duas horas bebendo. Resolvemos ir para outro bar. Os diálogos se rubricaram cursando. Entendi tratar-se egoísmo a pergunta. Sua recusa valia seu dom. Não sabia como cercá-lo ligeiramente. Para minha surpresa infeliz, vi. Vi o carro do perguntador extravagante. Passava célere como quem ronda. Cutuquei o visionário de espírito. Fi-lo analisar o cara baitola. Mesmo passando rapidamente, ele enxergou. Tinha uma ferida na boca. Disse ainda quem ele era. Um dos que ele nomeava. Um “ferida rosa morna”, disse. Que buscava a ferida própria. Rimos e discursamos avenida abaixo. A situação engraçada nos aproximou. Vimos o nome em letreiro - era um estabelecimento novo dali - contamos o dinheiro e entramos. Não falamos sobre velho assunto. Durante a meia hora quase. Engolimos mais umas duas cervejas.Cada um fez um brinde. Um conhaque pediram sem hesitar (na última hora que podiam: o bar fecharia em breve). Pensei na mulher que deixara. "É assim que ela começa, amigo. Vejo em todas as pessoas: a capacidade de querer sangrar - de seu cutucar para isso. Parece-me que adoram a dor. Que a cura é evitada.Para isso temos remédios vários. Tempo, nova dor e loucura. A última me agrada mais." Agora bêbado parecia mais interessante - tentei colocá-lo para falar mais. Eu acreditava naquele sujeito, sim. Veio correndo um novo ser. Chegou até nós com armas. Duas facas grandes de cozinha. Enterrou-as no peito do médium. Ele gritou, abriu duas vaginas. Duas gigantescas vaginas profundas, curvadas. Gritou "Como minha minha ferida". Saiu correndo pra rua abaixo. O médium frio caiu ensanguentado. Tocou meu ombro e sorriu. Vi várias escoriações na cara. Não lembrava de atingí-lo ali. Vi outras, bem mais fundas. Nas pernas, nos dedos, enfim. Morreu sorrindo, despreocupado, sereno. Não vi mais suas feridas. Hoje sou outro, logo percebo - basta ver a minha maldição. Passada como carne mal passada. Crua, sêca, fria e aberta. Não sei passar, já tentei. Precisaria tocar ao morrer, será? Não me basto de perguntas. Parece-me que além de ver... ainda tomo dores emprestadas, veja. Chega de contos de cinco. Chega de debasafar capitães dirigindo. A soma de tudo basta.